Ganhou a liminar, mas o plano não cumpre? O que fazer quando a Justiça é ignorada

Você tem uma decisão judicial na mão e o plano continua ignorando. Entenda a lógica do descumprimento, as ferramentas legais para forçar a obediência e por que o bloqueio de valores é o instrumento mais eficaz.

Mãe segurando a mão de criança internada em hospital enquanto segura documento judicial relacionado a tratamento negado por plano de saúde.
Mesmo com uma decisão judicial em mãos, muitas famílias ainda enfrentam a demora dos planos de saúde para autorizar tratamentos essenciais.
Índice

Após semanas de angústia, laudos e negativas, seu advogado liga com a notícia: "Conseguimos a liminar!" Um peso sai das suas costas. A Justiça mandou o plano de saúde autorizar a cirurgia, o medicamento, as terapias. Você finalmente acredita que o pior já passou.

Mas os dias viram semanas. A autorização não chega. A clínica diz que "não consta no sistema". O telefone do plano só toca uma música de espera. Aquele alívio se transforma em desespero. Você tem uma ordem judicial na mão, mas o tratamento continua parado.

Se você está vivendo isso, não está sozinho. E, mais importante: essa não é a última página da sua luta.

A vitória que não trouxe paz: o caso de Josué

Josué tem 2 anos e 4 meses. Ele foi diagnosticado com paralisia cerebral e epilepsia. Seus médicos prescreveram uma série de terapias contínuas: fisioterapia, fonoaudiologia, entre outras, que são a única chance de ele desenvolver suas capacidades e ter uma vida com mais autonomia. O plano, a Unimed Ferj, negou.

A família foi à Justiça e, há mais de oito meses, conseguiu uma liminar obrigando a operadora a custear o tratamento. Mas, segundo denúncia feita pela família ao G1, a decisão nunca foi cumprida de forma regular. O tratamento que deveria ser contínuo é picotado, inconstante, insuficiente. Na prática, Josué continua desassistido.

O caso dele é o retrato de uma tática cada vez mais documentada: o descumprimento deliberado de ordens judiciais.

EM NÚMEROS

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instrumentos legais disponíveis quando o plano descumpre uma liminar: multa, busca e apreensão, MP, crime e bloqueio de valores

Art. 537

do CPC permite majoração da multa diária (astreinte) a qualquer momento, sem limite de valor

Art. 330

do Código Penal: descumprir ordem judicial é crime de desobediência, passível de responsabilização dos administradores

Sisbajud

sistema do Banco Central que localiza e bloqueia valores em contas bancárias por ordem judicial, sem necessidade de ação adicional

Por que o plano ignora uma ordem judicial? A lógica do desgaste

É simples e revoltante: para o plano de saúde, descumprir uma ordem judicial muitas vezes é uma decisão de negócio. Eles fazem um cálculo frio: o que custa mais? Pagar o tratamento de alto custo agora ou enrolar e talvez pagar uma multa menor lá na frente?

A estratégia do plano:

Apostar na redução da multa: a multa diária (astreinte) pode ser alta, mas a jurisprudência, como o Tema 706 do STJ, permite que ela seja revista. O plano aposta que uma multa de R$ 500 mil pode ser reduzida para R$ 30 mil no final do processo. Financeiramente, descumprir pode parecer vantajoso.

Vencer pelo cansaço: a operadora sabe que você já está esgotado. Acredita que, diante de mais essa barreira, você não terá energia ou recursos para continuar a briga.

Esconder o dinheiro: em casos extremos, a situação da operadora é tão precária que ela não tem liquidez para pagar. A Unimed Ferj, por exemplo, acumula dívidas bilionárias. Em caso reportado pela Agência Pública, a Justiça tentou bloquear R$ 84 mil das contas da operadora para um reembolso de tratamento de autismo e encontrou as contas zeradas.

Eles não estão sendo desorganizados. Estão usando a burocracia e o tempo como instrumento.

O arsenal da lei contra o descumprimento

Quando o advogado peticiona ao juiz informando o descumprimento, ele não está apenas reclamando. Está ativando instrumentos coercitivos previstos no Código de Processo Civil:

Majoração da multa (art. 537 do CPC)
A primeira reação é pedir que a multa diária seja aumentada. Se era R$ 1.000, pode ir para R$ 5.000 ou R$ 10.000. O objetivo é fazer o descumprimento custar mais do que o cumprimento.

Busca e apreensão
Se o plano nega um medicamento, o juiz pode mandar um oficial de justiça ir até a farmácia, adquirir o produto e apresentar a conta para o plano pagar. Para home care, pode determinar contratação imediata de empresa especializada.

Comunicação ao Ministério Público e crime de desobediência
O advogado pode pedir que o juiz acione o Ministério Público para investigar a conduta dos administradores do plano. Ignorar uma ordem judicial é crime previsto no art. 330 do Código Penal.

Bloqueio de valores
Esta é a ferramenta mais eficaz. Merece explicação detalhada.

A medida mais eficaz: o bloqueio de valores

Se a multa não assusta, o bloqueio direto de dinheiro resolve. Funciona em quatro etapas:

1. Orçamento: o advogado apresenta ao juiz três orçamentos de clínicas ou profissionais particulares para realizar o tratamento prescrito.

2. Pedido de bloqueio: o advogado requer que o valor correspondente a um período de tratamento (3 ou 6 meses, por exemplo) seja bloqueado diretamente das contas bancárias da operadora.

3. Execução via Sisbajud: o juiz dá a ordem e, através do Sisbajud (sistema do Banco Central), localiza e arresta o dinheiro em qualquer conta em nome do plano.

4. Liberação para o paciente: o valor bloqueado é transferido para conta judicial e liberado para que o tratamento seja pago diretamente, sem depender da autorização do plano.

O plano pode ignorar o oficial de justiça e subestimar a multa. Mas não pode operar sem dinheiro nas contas.

O que fazer agora

Se você tem uma liminar e o tratamento não está acontecendo, não espere:

Documente tudo. Anote cada protocolo de ligação. Salve e-mails. Peça declarações por escrito das clínicas informando que não há agenda ou que o plano não autorizou. Crie um registro cronológico do descumprimento.

Comunique seu advogado imediatamente. Envie toda a documentação reunida. Ele é o único que pode acionar as medidas no processo.

Não desista. O plano conta com o seu cansaço. A lei está do seu lado, e as ferramentas para fazê-la ser cumprida existem e são utilizadas todos os dias.

A batalha não é só sua

O caso de Josué não é sobre Josué apenas. É sobre centenas de outras crianças que, segundo as denúncias registradas, são vítimas da mesma prática. É sobre cada família que olha para uma decisão judicial e se pergunta por que ela não vale nada.

Vale. Mas a Justiça precisa ser provocada a usar sua força máxima. E isso começa com você, munido de provas, ligando para seu advogado e dizendo: "Eles não cumpriram. Vamos para o próximo passo."

O plano pode conseguir que a multa por descumprimento seja reduzida depois?

Pode tentar. O Tema 706 do STJ permite que astreintes (multas por descumprimento) sejam revistas quando o valor acumulado for desproporcional. Por isso, quanto mais rápido o advogado pedir o bloqueio de valores em vez de acumular multa, mais eficaz tende a ser a resposta judicial. A estratégia varia conforme o caso.

O que é o Sisbajud e como ele funciona?

Sisbajud é um sistema do Banco Central que permite ao Poder Judiciário localizar e bloquear recursos em contas bancárias por ordem judicial, de forma eletrônica. Quando o juiz autoriza o bloqueio, o sistema acessa informações de todas as instituições financeiras e executa o arresto do valor determinado. A operadora não tem como escapar dessa medida sem que a conta esteja zerada.

Descumprir uma liminar judicial é crime?

Sim. O art. 330 do Código Penal tipifica o crime de desobediência para quem não cumpre ordem legal de funcionário público. No contexto de descumprimento de decisão judicial por uma operadora, o advogado pode pedir ao juiz que acione o Ministério Público para apurar a conduta dos administradores responsáveis pela decisão de não cumprir.

E se as contas do plano estiverem zeradas?

Essa é a situação mais grave, especialmente em operadoras com problemas financeiros documentados. Nesse cenário, o advogado pode buscar outras medidas: penhora de ativos (imóveis, veículos, equipamentos), ação contra os sócios ou administradores em alguns casos, ou intervenção junto à ANS para fiscalização da operadora. Cada situação exige estratégia específica.

Quanto tempo leva para o juiz determinar o bloqueio de valores?

Não há prazo fixo. O bloqueio via Sisbajud é tecnicamente rápido uma vez que o juiz defira o pedido. A velocidade depende da celeridade do juízo, da completude do pedido do advogado e da urgência demonstrada no caso. Em situações com urgência médica comprovada e descumprimento documentado, a decisão tende a ser mais ágil.


Seu plano descumpriu a liminar?

O descumprimento de decisão judicial tem resposta na lei. Uma análise do seu caso pode indicar qual o próximo instrumento mais adequado.

Quero entender meu caso

LEGISLAÇÃO E JURISPRUDÊNCIA CITADAS

  • CPC art. 537: Multa (astreinte) por descumprimento de ordem judicial; permite majoração a qualquer tempo sem limite de valor
  • Código Penal art. 330: Crime de desobediência: desobedecer ordem legal de funcionário público
  • Tema 706 do STJ: Permite revisão de astreintes quando o valor acumulado for desproporcional ao objeto da obrigação
  • Sisbajud (Sistema de Busca de Ativos do Poder Judiciário): Ferramenta eletrônica do Banco Central que permite ao Judiciário bloquear valores em contas bancárias por ordem judicial
Disclaimer: Fontes jornalísticas citadas neste artigo: G1 Rio de Janeiro (12/03/2026), Consultor Jurídico (06/08/2025), Agência Pública (17/12/2025), G1 Rio de Janeiro (02/03/2026). O caso de Josué foi reportado pela família ao G1 e constitui relato jornalístico de acesso público. A legislação citada está disponível nos portais oficiais do Planalto e do STJ.

Aviso Legal — OAB/RJ 186.394

Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educativa, nos termos do Regulamento Geral do Estatuto da OAB e do Provimento 205/2021 do CFE. Não constitui aconselhamento jurídico, parecer ou qualquer forma de captação de clientela. Cada situação de saúde é única e pode envolver circunstâncias jurídicas distintas. Procure um advogado especializado para análise individualizada do seu caso.

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